Pogačar e a arte de ganhar sozinho: terceiro Tour de Flandres consecutivo
Tadej Pogačar atacou no Oude Kwaremont, largou Van der Poel a 18 km da meta, e ganhou o seu terceiro Ronde. O esloveno igualou recordes, coleccionou o 12.º Monumento, e deixou o pelotão sem respostas. Outra vez.
Há corridas que se decidem num sprint caótico, num jogo táctico de nervos, ou num erro alheio. E depois há corridas que o Tadej Pogačar decide ganhar. O Tour de Flandres 2026 foi uma destas. O esloveno de 27 anos atacou na última subida ao Oude Kwaremont, a 18 km da meta, largou Mathieu van der Poel como quem larga um peso morto, e pedalou sozinho até Oudenaarde. Chegou à meta com 34 segundos de vantagem sobre o neerlandês. Remco Evenepoel, a competir pela primeira vez no Ronde, ficou a 1 minuto e 11 segundos. Wout van Aert, em quarto, a mais de dois minutos.
Não foi uma surpresa. Foi quase uma cópia. Em 2025, Pogačar fez exactamente o mesmo: atacou no Kwaremont, rodou sozinho, e ganhou com margem confortável. Ninguém encontrou uma resposta nos doze meses que passaram desde então.
O número 12
Com esta vitória, Pogačar soma agora 12 vitórias em Monumentos. O número coloca-o isolado no segundo lugar da lista histórica, atrás apenas de Eddy Merckx, que tem 19. Para contextualizar: ciclistas como Fausto Coppi, Roger De Vlaeminck, ou o próprio Cancellara nunca passaram dos 8. Pogačar tem 27 anos.
No Tour de Flandres especificamente, esta é a terceira vitória consecutiva. Iguala assim os recordes de Achiel Buysse (1940-41-43), Eric Leman (1970-71-72) e Johan Museeuw (1993-95-98), embora nenhum deles tenha ganho três seguidos nos termos em que Pogačar o fez: atacando do mesmo sítio, da mesma forma, com a mesma brutalidade.
A temporada perfeita até agora
O que torna isto verdadeiramente absurdo é o contexto. O Tour de Flandres foi apenas a terceira corrida da temporada 2026 de Pogačar. As anteriores? Strade Bianche e Milão-San Remo. Venceu ambas. Três corridas, três vitórias, três clássicas de primeiro plano.
Se vencer a Paris-Roubaix no próximo fim de semana, torna-se apenas o quarto ciclista da história a vencer os cinco Monumentos (depois de Merckx, Van Looy e De Vlaeminck). E fá-lo-ia potencialmente numa única primavera, algo que nunca ninguém conseguiu.
O que aconteceu na corrida
A 110.ª edição do Tour de Flandres partiu de Antuérpia com 278,2 quilómetros pela frente, incluindo 16 subidas em calçada. Os primeiros 200 km foram controlados pelas equipas dos favoritos, com a corrida a começar a partir-se na segunda passagem pelo Kwaremont.
Van der Poel, o único que tentou seguir, cedeu antes do topo. A partir daí, foi um exercício solitário. Pogačar cruzou a meta em Oudenaarde em 6h20m07s. Van der Poel chegou 34 segundos depois, prolongando a sua série impressionante de sete pódios consecutivos no Ronde. Evenepoel, na estreia absoluta nesta corrida, fechou o pódio a 1m11s, provando que tem as pernas para as clássicas flamengas.
Pormenores que dizem tudo
Há pequenos detalhes que contam a história melhor do que os números. O primeiro: quando Pogačar atacou no Kwaremont, não olhou para trás. Nem uma vez. Sabia que estava sozinho antes de toda a gente. O segundo: no pós-corrida, quando lhe perguntaram se sentia pressão, respondeu que sim, que sente pressão cada vez que corre. A resposta honesta de alguém que sabe que o pelotão inteiro espera que ele falhe, e que sistematicamente não lhes dá esse prazer.
Van der Poel, que raramente faz elogios a rivais em entrevistas, limitou-se a dizer que não tinha pernas para o seguir. Sem desculpas, sem explicações tácticas. Quando a diferença é física, não há muito a analisar.
O que significa para o ciclismo
Estamos provavelmente a assistir ao ciclista mais completo de sempre. Não é uma afirmação feita de ânimo leve. Merckx dominou numa era diferente. Hinault, Coppi, Indurain, todos tiveram o seu período de supremacia. Mas nenhum conseguiu o que Pogačar está a fazer: ganhar Grandes Voltas (Tour de France, Giro, Vuelta), dominar as clássicas de primavera, e fazê-lo com uma aparente facilidade que desmoraliza a oposição.
A Paris-Roubaix de domingo que vem será o próximo teste. E se o historial recente serve de indicação, será provavelmente mais um exercício de solidão no pavé.
Resultados: Tour de Flandres 2026
João
Sintra-Cascais, Portugal